Assembleia dos Povos Indígenas reúne diferentes gerações na defesa dos territórios no Tocantins

Durante três dias na Terra Indígena Apinajé, lideranças discutiram mineração, demarcação, mudanças climáticas, participação política e soberania alimentar. O encontro também reuniu experiências de resistência e transmissão de conhecimentos entre povos indígenas do estado. A Aldeia Prata, na Terra Indígena Apinajé, em Tocantinópolis (TO), recebeu, entre os dias 17 e 19 de setembro, a Assembleia dos Povos Indígenas no Tocantins. Com o tema “Direitos indígenas e justiça climática: desafios e caminhos para a proteção dos territórios”, o encontro reuniu representantes dos povos Apinajé, Krahô, Xerente, Krahô-Kanela e Krahô da Aldeia Takaywrá para discutir problemas vividos dentro e no entorno de seus territórios e construir formas coletivas de enfrentamento. As discussões passaram pela situação das terras ainda sem demarcação, pelas ameaças relacionadas à mineração e ao avanço de atividades econômicas sobre os territórios, pelo combate ao fogo, pelas mudanças climáticas, pelo período eleitoral e pela preservação das sementes e roças tradicionais. Ao longo da Assembleia, diferentes gerações de lideranças relacionaram a proteção territorial à alimentação, à água, à memória, à autonomia política e à possibilidade de continuidade dos povos. Para Carlos Apinajé, uma das lideranças presentes, reunir diferentes povos também significava transformar dificuldades comuns em articulação. “Estamos realizando esse evento para debater os nossos direitos, os problemas, os desafios. Vamos discutir os problemas que têm no território, saúde, educação, os povos ainda sem território demarcado. É isso que nós queremos debater para fortalecer a nossa luta.”   Um território ameaçado também do lado de fora Uma das principais preocupações apresentadas durante o encontro foi a pressão de empreendimentos e atividades econômicas sobre as terras indígenas. Na programação da Assembleia, a discussão sobre mineração e territórios indígenas ocorreu no segundo dia, acompanhada de debates sobre questões indígenas junto ao Ministério Público Federal. Na noite anterior, o combate ao fogo nos territórios também havia sido tema de conversa entre participantes, brigadistas e organizações presentes. O cacique Joel Apinajé, da Aldeia Prata, chamou atenção para o fato de que os impactos não começam necessariamente dentro dos limites oficialmente reconhecidos das terras indígenas. “Hoje o assunto que nós estamos discutindo é a questão da mineração sobre o nosso território. Nós, povos indígenas, temos essa preocupação. É um impacto muito grande, não só de dentro do nosso território, mas também perto da nossa divisa.” A fala ajuda a compreender que a proteção territorial não termina numa linha desenhada no mapa. O que acontece no entorno interfere na água, na vegetação, nos animais e nas formas de vida mantidas dentro das terras indígenas. Gecilha Krahô relacionou essas transformações a impactos já percebidos pelas comunidades. “Primeiro enganaram nós, que diziam que a barragem não ia atingir, não ia dar nada. Perdemos! E agora já vem o negócio de garimpo, o tanto de desmatamento que está tendo.” A preocupação também aparece diante das mudanças recentes na legislação ambiental. A Lei Geral do Licenciamento Ambiental, Lei nº 15.190/2025, passou a estabelecer normas nacionais para o licenciamento e contém dispositivos específicos sobre empreendimentos que possam afetar terras indígenas. Durante a Assembleia, mudanças na legislação e seus possíveis efeitos sobre povos e territórios estiveram entre os assuntos da análise da conjuntura indigenista. “Nós temos a nossa boca” A defesa do território apareceu junto à capacidade dos próprios povos de interpretar os problemas que os atingem e participar das decisões sobre seus futuros. Em uma das falas da Assembleia, Gecilha Krahô questionou relações nas quais decisões sobre os povos indígenas são tomadas sem que suas próprias formas de conhecimento e organização sejam consideradas. “Quem tem de gritar somos nós indígenas, que têm de dizer. A terra é do mehin, não é do kupen. Nós temos a nossa boca, nós temos os nossos corações e nós temos o miolo para pensar. E nós temos os nossos olhos para poder ver e perceber como é que a gente tem de falar.” A fala de Gecilha reivindica a existência de modos próprios de pensar, perceber e decidir, transmitidos entre gerações e mobilizados diante das transformações que chegam aos territórios. A discussão em torno da presença dos mais velhos e dos jovens também integrou a Assembleia. “Parece que metade do povo está dormindo, metade do povo está esquecido”, disse Gercilha em outro momento. Para ela, circular por outros espaços e ouvir diferentes experiências tem ampliado sua responsabilidade com aqueles que vêm depois: “Cada vez mais eu estou abrindo meu olho, estou abrindo minha cabeça, para poder dar conselho aos meus filhos, meus netos que estão vindo.” A luta territorial aparece também como uma relação entre tempos. O que foi defendido pelas gerações anteriores é retomado no presente diante de novas ameaças e projetado sobre as condições que filhos, netos e bisnetos encontrarão. Izabel Xerente comenta sobre essa preocupação: “Eu tenho que lutar por meus filhos, por meus netos. O andorim sozinho não faz verão, mas se nós juntamos tudo… Hoje eu estou com meu coração na mão por causa do meu neto, por causa do meu filho, por causa do tataraneto. Com o que vai ficar se eu morrer?” Quando não há terra demarcada Se para alguns dos povos presentes a preocupação estava em proteger territórios já reconhecidos, para outros a própria garantia da terra permanece como uma luta em andamento. José Valdete, cacique Krahô da Aldeia Takaywrá, levou à Assembleia o relato de uma comunidade que ainda aguarda a garantia de seu território. Ao ouvir durante o encontro diferentes lideranças associarem a terra à figura da mãe, ele respondeu a partir da própria experiência: “Quando vocês falaram ontem que a terra é uma mãe, eu estou aqui neste lugar e não tenho mãe. Eu nasci aqui no município, mas eu não tenho essa mãe. Fui criado pela mãe dos outros parentes. Até hoje estamos vivendo assim.” As famílias vivem atualmente em uma pequena área e enfrentam alagamentos recorrentes, com limitações até mesmo para a construção de novas moradias. “Água dentro de casa, jacaré dentro de casa, peixe dentro de casa, e nós estamos resistindo naquele lugar. Já fomos removidos duas vezes daquele local por causa da enchente.” A situação do povo Krahô da

Povos indígenas do Tocantins divulgam mensagem final da Assembleia realizada na Terra Indígena Apinajé

Documento reúne manifestações de lideranças, mulheres, jovens e anciões sobre direitos indígenas, justiça climática e proteção dos territórios. Entre os dias 17 e 19 de setembro de 2026, lideranças dos povos Apinajé, Krahô, Xerente, Krahô-Kanela e Krahô da aldeia Takaywrá estiveram reunidas na Aldeia Prata, Terra Indígena Apinajé, em Tocantinópolis (TO), durante a Assembleia dos Povos Indígenas no Tocantins. Com o tema “Direitos indígenas e justiça climática: desafios e caminhos para a proteção dos territórios”, o encontro reuniu mulheres, jovens, caciques, lideranças e anciões em três dias de diálogo, articulação e troca de conhecimentos. Ao final da Assembleia, os povos reunidos construíram uma mensagem coletiva que registra preocupações, denúncias e reivindicações relacionadas à garantia dos direitos indígenas e à proteção dos territórios. Confira abaixo. Mensagem final da Assembleia dos povos indígenas no Tocantins “Nossas bordunas e flechas estão prontas para seguir na luta”. Ricardo Krahô Nós, lideranças dos povos Apinajé, Krahô, Xerente, Krahô-Kanela e Krahô da aldeia Takaywrá, reunidos nos dias 17 a 19 de setembro de dois mil e vinte e seis, na aldeia Prata, T. I. Apinajé, em Tocantinópolis – TO, na Assembleia dos Povos Indígenas no Tocantins, com o tema “Direitos indígenas e justiça climática: desafios e caminhos para a proteção dos territórios”, manifestamos nas diversas falas das mulheres, dos jovens, dos caciques, das lideranças e anciões os perigos que estão correndo os nossos direitos e territórios. A nossa principal preocupação da conjuntura indigenista que estamos vivendo é com a Lei nº 14.701/2023, conhecida por nós como a Lei do Marco Temporal. Essa lei, aprovada no Congresso Nacional, ameaça o direito originário dos povos indígenas, ignora os processos de violência e violações de nossos direitos que vivemos historicamente, coloca em risco o usufruto exclusivo dos povos indígenas e ataca gravemente a natureza das terras indígenas, que são inalienáveis e indisponíveis, e cujos direitos são imprescritíveis. Esta Lei nº 14.701 significa a destruição total de nossos direitos garantidos na Constituição Federal de 1988 e deve ser julgada, em sua integralidade, como uma lei inconstitucional pelo Supremo Tribunal Federal. Mas, ao mesmo tempo, nossa preocupação aumenta, porque existem outras leis e várias proposições legislativas que atentam contra nossos direitos, contra a natureza e contra o nosso Bem Viver, e não apenas o nosso, mas também o de outros povos e comunidades tradicionais, como é o caso da Lei nº 15.190/2025, do licenciamento ambiental, que flexibiliza as regras do licenciamento ambiental e amplia o risco de exploração econômica, inclusive em territórios indígenas e de povos e comunidades tradicionais. Nos nossos territórios, a mãe natureza vem sofrendo vários ataques, como: o envenenamento das águas, o roubo de madeiras, a retirada de ovos de arara, o fogo criminoso e o avanço do agronegócio em torno dos nossos territórios. Por isso, estamos aqui para, juntos, buscarmos força e coragem para seguir denunciando tudo aquilo que agride nossa Mãe Terra. “Os brancos vêm e levam os filhotes de arara. Vocês acham que nós, pais, achamos bom que nossos filhos sejam levados? Não! Pois os bichinhos também não, pois eles sofrem!” Gercilha Krahô. O território indígena é a nossa sobrevivência, onde temos água limpa, frutos nativos e a nossa cultura. Plantamos nossas roças tradicionais, tiramos o nosso remédio natural, pescamos nossos peixes e caçamos para a nossa alimentação, seguramos as florestas, e mantemos a mata viva. Por isso, porque nosso território é vida, não queremos e nem aceitaremos a mineração nas terras indígenas, pois representa uma grande ameaça aos territórios indígenas. A mineração destrói a natureza, envenena os rios, envenena a água, mata os animais e adoece nosso povo. Por isso, não queremos que nenhuma empresa venha explorar nossos territórios e destruir nossas florestas, nossas matas e as riquezas do Cerrado. “Queremos que a natureza seja respeitada, que aquilo que ela guarda dentro dela fique nela. Não queremos que tirem dela, pois tem sua importância e função para o equilíbrio da terra. E, porque deve ser respeitado o Espírito que nela habita”. Óscar Apinajé. No nosso território, estamos sofrendo com as mudanças climáticas: muito calor, tudo está secando, a terra está quente e, na época do plantio das roças, o calor da terra cozinha as sementes e elas não nascem. Nós, povos indígenas, clamamos a todo o povo brasileiro para ouvir o grito de socorro da Mãe Terra e o canto dos indígenas, que, como diz Samuel Xerente: “Eu canto para abrir o nosso coração e nosso espírito e poder ajudar a defender o nosso direito e a nossa Mãe Terra”. É urgente cuidar da mãe terra, que está sofrendo com as mudanças climáticas. É preciso parar o desmatamento, é preciso parar de desmatar as nascentes de água e é preciso parar de colocar fogo na natureza, para que não fiquemos sem um lugar para viver. Estamos em um ano eleitoral e convocamos os nossos parentes e apoiadores, as mulheres, os jovens, as lideranças aos anciões e toda a sociedade em geral para votarem nos candidatos que não colocam em risco nossa Mãe Terra e que não coloquem em risco a continuidade do projeto do Bem Viver dos povos indígenas. Votar em quem defende os direitos indígenas é votar na defesa dos territórios, das florestas, dos rios e do direito originário dos povos indígenas. Não vamos votar em quem é a favor do Marco Temporal e defende a mineração nas terras indígenas. Não vamos votar em quem defende o agronegócio e o MATOPIBA e destrói o Cerrado e seus povos. Nós, povos indígenas do Tocantins, não vamos fortalecer os partidos e candidatos que são contra nossos direitos e territórios. A assembleia foi um momento de fortalecimento da nossa força ancestral e política. Relembramos os nossos antepassados que lutaram para garantir os nossos territórios. Como lembra Óscar Apinajé, “nossos ancestrais batizaram nossa terra com sangue e luta”. Por isso, estamos todos aqui lutando pelos povos que não tem território demarcado e pelos povos que têm seus territórios, mas estão sendo invadidos. A nossa luta é uma só e é por todos. Aqui viemos para, juntos,

Conheça o Parque Estadual do Lajeado

Série de conteúdos apresenta a importância das nascentes, a visitação e o manejo integrado do fogo e amplia o diálogo sobre a proteção do Cerrado no Tocantins No alto da Serra do Lajeado, a poucos quilômetros da área urbana de Palmas, uma extensa área de Cerrado cumpre funções que nem sempre são percebidas por quem vive na capital. Ali está o Parque Estadual do Lajeado (PEL), unidade de conservação de proteção integral criada em 2001 e administrada pelo Instituto Natureza do Tocantins (Naturatins). São aproximadamente 9.930 hectares destinados à proteção da fauna, da flora, dos recursos naturais e dos mananciais da região. Para aproximar a população dessa realidade, o Instituto Terra, Direitos e Cidadania produziu uma série de conteúdos sobre o Parque, mostrando diferentes dimensões de uma área que reúne conservação ambiental, proteção das águas, prevenção de incêndios, pesquisa, educação ambiental e possibilidades de visitação. Além de apresentar um ponto turístico próximo à capital, o objetivo foi dar visibilidade ao trabalho desenvolvido na unidade e ajudar a compreender por que preservar o Parque Estadual do Lajeado também importa para quem vive fora de seus limites. Onde a água encontra proteção Uma das dimensões mais importantes do Parque está justamente naquilo que corre para além de suas fronteiras: a água. Em entrevista ao Instituto Terra, a supervisora do Parque Estadual do Lajeado, Camila Muniz, explica que a unidade está localizada no topo da Serra do Lajeado e abriga diversas nascentes relacionadas ao Ribeirão Lajeado. Segundo ela, essas águas têm importância para o abastecimento da região norte de Palmas, do município de Lajeado e de propriedades rurais localizadas entre os dois municípios. A proteção dos mananciais também está entre as finalidades reconhecidas oficialmente para a unidade de conservação. O Parque está inserido no bioma Cerrado e reúne nascentes, córregos, ribeirões, áreas úmidas e diferentes formações de vegetação. Camila chama atenção ainda para um processo que levou tempo. Durante aproximadamente 25 anos, a área permaneceu fechada, possibilitando a regeneração natural de sua vegetação. Hoje, segundo a supervisora, os efeitos desse período podem ser percebidos também na água. “Temos aqui um córrego que voltou a ter água em abundância e qualidade devido a esses 25 anos de fechamento e regeneração natural da vegetação”, explica. A experiência evidencia uma relação que muitas vezes passa despercebida: proteger a vegetação também significa proteger as águas que atravessam um território e chegam até outras formas de vida. Um Parque para conhecer, caminhar e viver Preservar uma área não significa necessariamente mantê-la distante das pessoas. Uma das transformações recentes apresentadas na série produzida pelo Instituto Terra é justamente a ampliação das possibilidades de visitação ao Parque Estadual do Lajeado. Criado em maio de 2001, o PEL tem, entre seus objetivos, a proteção dos recursos naturais e o aproveitamento sustentável de seu potencial turístico. Na entrevista, Camila explica que a unidade passou a receber visitantes de forma mais ampla e que o acesso ao interior do Parque privilegia deslocamentos a pé ou de bicicleta. Segundo a supervisora, o espaço conta atualmente com duas trilhas autoguiadas e sinalizadas, além de pontos estruturados para banho. A Trilha Brejo da Passagem é uma das opções apresentadas como percurso acessível também para famílias e crianças. Outra iniciativa é a rota de cicloturismo Joatan Oliveira, criada em homenagem a um ciclista de Lajeado ligado à região. O circuito utiliza cerca de 48 quilômetros de estradas internas do Parque. A abertura para visitação aproxima a população de uma paisagem que, durante muitos anos, permaneceu pouco conhecida, inclusive entre moradores da própria capital. Em junho de 2026, por exemplo, o Parque também integrou a programação da Semana do Meio Ambiente de Palmas, recebendo estudantes da rede pública em uma atividade de educação ambiental. Conhecer esses espaços pode contribuir para transformar conservação em uma experiência. É diferente falar sobre uma nascente e caminhar até ela, ou ouvir sobre a recuperação do Cerrado e observar a vegetação regenerando. A visitação, quando realizada de maneira responsável e de acordo com as orientações da unidade, também pode fortalecer essa aproximação entre sociedade e conservação. Quando o fogo também é uma ferramenta de proteção Outro conteúdo produzido pelo Instituto Terra apresenta uma questão que costuma gerar dúvidas: por que uma equipe responsável pela proteção de uma unidade de conservação coloca fogo na vegetação? A resposta passa pelo Manejo Integrado do Fogo (MIF). Ao contrário de um incêndio florestal descontrolado, a queima prescrita é planejada e executada em condições específicas por equipes capacitadas. A técnica é utilizada preventivamente para reduzir material combustível e criar condições que dificultem a propagação de incêndios de maior intensidade durante os períodos mais críticos da estiagem. Atualmente, a queima prescrita integra a Política Nacional de Manejo Integrado do Fogo. No Parque Estadual do Lajeado, Camila explica que o manejo é realizado ao longo do ano e utiliza o fogo de forma estratégica. Em uma das áreas apresentadas no vídeo, a equipe havia realizado uma queima prescrita poucas semanas antes e a vegetação começava a brotar. A proposta é formar mosaicos na paisagem: algumas áreas são manejadas estrategicamente para que, no período de seca extrema, possam funcionar como pontos de apoio ao trabalho das equipes e dificultar que um incêndio se espalhe por grandes extensões. “A gente queima algumas áreas de forma estratégica”, explica Camila, destacando que se trata de um fogo de baixa intensidade e planejado para reduzir a severidade de possíveis incêndios posteriores. A técnica também vem sendo utilizada em outras ações de prevenção em Palmas. Em maio de 2026, brigadistas do Naturatins participaram de uma capacitação prática com a Defesa Civil Municipal voltada justamente ao uso do MIF e da queima prescrita para a redução preventiva de material combustível. Para Romário Pereira Nunes, brigadista do Parque, esse trabalho precisa acontecer antes da chegada do período mais crítico da seca. “Essa é uma atividade que a gente faz anualmente para evitar que o fogo de fora venha e passe com facilidade para o Parque”, explica. Segundo Camila, o trabalho também envolve moradores do entorno e vem

Oficina de Sementes Krahô fortalece conhecimentos tradicionais, autonomia alimentar e memória na Aldeia Macaúba

Realizado entre os dias 21 e 23 de junho, o encontro reuniu práticas de seleção, manejo e conservação de sementes, construção coletiva do território e reflexões sobre a continuidade da alimentação tradicional Krahô Entre os dias 21 e 23 de junho de 2026, a Aldeia Macaúba, na Terra Indígena Krahô, em Itacajá (TO), recebeu a Oficina sobre as Sementes Krahô, realizada pelo Instituto Terra, Direitos e Cidadania junto à comunidade. Durante três dias, sementes, roças e alimentos estiveram no centro das conversas, o que também abriu espaço para falar sobre memória, saúde, transmissão de conhecimentos e sobre aquilo que as próximas gerações encontrarão para continuar cultivando. A programação reuniu trocas de experiências sobre seleção, manejo, plantio e conservação de sementes tradicionais. Os participantes compartilharam práticas desenvolvidas nas roças e conhecimentos transmitidos entre gerações, olhando tanto para as variedades que continuam presentes no território quanto para a necessidade de fortalecê-las e multiplicá-las. Para o cacique da Aldeia Macaúba, Valdir Hopaka Krahô, guardar as próprias sementes está diretamente relacionado à autonomia da comunidade. “É muito importante nós produzir e guardar para nós ter semente de qualidade. A gente se preocupa muito com a semente, porque nós temos sementes aqui que são tradicionais. A gente tenta fortalecer mais o que nós temos. Foi muito importante esse momento. Isso é a nossa luta”, afirmou.   Uma história que continua sendo plantada A relação do povo Krahô com as sementes atravessa gerações. Na tradição Krahô, Catxêkwy, a mulher-estrela, está relacionada à origem da agricultura. A narrativa conta que foi ela quem trouxe sementes de milho, mandioca, batata-doce, inhame e outros alimentos e compartilhou conhecimentos sobre o cultivo e o preparo da comida. Entre essas sementes estavam variedades do pohumpéy, conhecido como “milho bom”. Essa relação não se limita à produção de alimentos. As sementes tradicionais circulam entre famílias e aldeias por meio da troca e da partilha e são compreendidas como um bem coletivo. Ao longo do século XX, no entanto, diferentes processos contribuíram para a redução da diversidade das roças Krahô. A introdução de modelos de produção externos às formas tradicionais de cultivo, entre eles a monocultura do arroz, favoreceu a substituição de espécies e variedades anteriormente manejadas e contribuiu para a perda ou o quase desaparecimento de sementes. Uma dessas perdas marcou profundamente a história recente do povo: o desaparecimento do milho pohumpéy de suas roças. No início da década de 1990, lideranças e anciãos Krahô discutiam as dificuldades alimentares enfrentadas nas aldeias e relacionavam parte daquele cenário à ausência do milho tradicional. Em 1994, uma comitiva de caciques foi até Brasília em busca das sementes mantidas no banco de germoplasma da Embrapa Recursos Genéticos e Biotecnologia. Pequenas quantidades de variedades identificadas como pohumpéy retornaram às aldeias e passaram novamente a ser cultivadas e multiplicadas. No ano seguinte, os próprios Krahô levaram parte das sementes já multiplicadas de volta à Embrapa, preocupados em criar também uma reserva que pudesse ser acessada caso aquelas variedades desaparecessem novamente. Essa história ajuda a compreender por que uma oficina sobre sementes, realizada décadas depois, não começa do zero. Ela se insere em uma trajetória de mobilização, cuidado e circulação de conhecimentos construída pelo próprio povo Krahô. Produzir, guardar e compartilhar Durante a oficina na Aldeia Macaúba, esse conhecimento apareceu nas experiências compartilhadas pelos participantes: na escolha das sementes, no cuidado com a roça, na preocupação em guardar variedades para o próximo plantio e na necessidade de ampliar aquilo que já é cultivado pelas famílias. Uma das reflexões do encontro foi justamente sobre a importância de produzir para que as sementes possam circular. Quando uma variedade é plantada, multiplicada e compartilhada, aumentam também as possibilidades de que ela continue presente em outras roças e chegue às próximas gerações. Essa preocupação apareceu de forma especial nas falas das mulheres participantes. Valquíria Krahô destacou o compromisso de levar mais sementes para os próximos encontros e de compartilhar esses conhecimentos com filhos e netos, inclusive dentro das escolas. Em sua fala, a continuidade das sementes esteve diretamente ligada à possibilidade de manter alimentos como mandioca, inhame, frutas e outras comidas aprendidas com os antepassados presentes no cotidiano das famílias. O debate também trouxe uma preocupação cada vez mais presente nas comunidades: a alimentação. Participantes relacionaram a diminuição das roças e dos alimentos tradicionais à presença crescente de produtos comprados nas cidades e defenderam a retomada e o fortalecimento da produção local. Nesse contexto, plantar expande a produção agrícola, a roça relaciona movimento, conhecimento do território, alimentação e autonomia. A discussão reforçou uma perspectiva que orientou toda a oficina: fortalecer a alimentação tradicional é criar condições para que conhecimentos construídos ao longo de gerações continuem sendo praticados, adaptados e transmitidos no presente. O território a partir de quem vive nele Além das atividades relacionadas diretamente às sementes, a oficina incluiu a construção coletiva de um mapa do território. O exercício partiu das experiências e do olhar dos próprios Krahô sobre os lugares que fazem parte de sua vida, o que permitiu reunir percepções sobre roças, caminhos, áreas de uso e outros elementos importantes para a relação da comunidade com o território. A construção do mapa aproximou duas dimensões que estiveram presentes durante todo o encontro: não há como falar de sementes sem falar de território. É no território que as sementes encontram as condições para germinar, que os conhecimentos sobre plantio são experimentados e atualizados e que as relações de troca entre pessoas, famílias e gerações acontecem. Por isso, conservar sementes tradicionais vai além do armazenamento, a experiência histórica Krahô mostra a importância de mantê-las em circulação: plantar, colher, selecionar, repartir e voltar a plantar. O próprio processo de recuperação do pohumpéy demonstrou que devolver uma semente ao território é apenas o começo; é o cultivo contínuo que permite que ela volte a fazer parte da vida. Sementes para continuar Uma das falas compartilhadas durante a oficina sintetizou esse sentido de continuidade: séculos passaram e o povo Krahô continua produzindo, plantando e lutando pela vida. Há esperança porque há sementes sendo