

Realizado entre os dias 21 e 23 de junho, o encontro reuniu práticas de seleção, manejo e conservação de sementes, construção coletiva do território e reflexões sobre a continuidade da alimentação tradicional Krahô
Entre os dias 21 e 23 de junho de 2026, a Aldeia Macaúba, na Terra Indígena Krahô, em Itacajá (TO), recebeu a Oficina sobre as Sementes Krahô, realizada pelo Instituto Terra, Direitos e Cidadania junto à comunidade.
Durante três dias, sementes, roças e alimentos estiveram no centro das conversas, o que também abriu espaço para falar sobre memória, saúde, transmissão de conhecimentos e sobre aquilo que as próximas gerações encontrarão para continuar cultivando.
A programação reuniu trocas de experiências sobre seleção, manejo, plantio e conservação de sementes tradicionais. Os participantes compartilharam práticas desenvolvidas nas roças e conhecimentos transmitidos entre gerações, olhando tanto para as variedades que continuam presentes no território quanto para a necessidade de fortalecê-las e multiplicá-las.
Para o cacique da Aldeia Macaúba, Valdir Hopaka Krahô, guardar as próprias sementes está diretamente relacionado à autonomia da comunidade.
“É muito importante nós produzir e guardar para nós ter semente de qualidade. A gente se preocupa muito com a semente, porque nós temos sementes aqui que são tradicionais. A gente tenta fortalecer mais o que nós temos. Foi muito importante esse momento. Isso é a nossa luta”, afirmou.
A relação do povo Krahô com as sementes atravessa gerações. Na tradição Krahô, Catxêkwy, a mulher-estrela, está relacionada à origem da agricultura. A narrativa conta que foi ela quem trouxe sementes de milho, mandioca, batata-doce, inhame e outros alimentos e compartilhou conhecimentos sobre o cultivo e o preparo da comida. Entre essas sementes estavam variedades do pohumpéy, conhecido como “milho bom”.
Essa relação não se limita à produção de alimentos. As sementes tradicionais circulam entre famílias e aldeias por meio da troca e da partilha e são compreendidas como um bem coletivo.
Ao longo do século XX, no entanto, diferentes processos contribuíram para a redução da diversidade das roças Krahô. A introdução de modelos de produção externos às formas tradicionais de cultivo, entre eles a monocultura do arroz, favoreceu a substituição de espécies e variedades anteriormente manejadas e contribuiu para a perda ou o quase desaparecimento de sementes. Uma dessas perdas marcou profundamente a história recente do povo: o desaparecimento do milho pohumpéy de suas roças.
No início da década de 1990, lideranças e anciãos Krahô discutiam as dificuldades alimentares enfrentadas nas aldeias e relacionavam parte daquele cenário à ausência do milho tradicional. Em 1994, uma comitiva de caciques foi até Brasília em busca das sementes mantidas no banco de germoplasma da Embrapa Recursos Genéticos e Biotecnologia. Pequenas quantidades de variedades identificadas como pohumpéy retornaram às aldeias e passaram novamente a ser cultivadas e multiplicadas.
No ano seguinte, os próprios Krahô levaram parte das sementes já multiplicadas de volta à Embrapa, preocupados em criar também uma reserva que pudesse ser acessada caso aquelas variedades desaparecessem novamente. Essa história ajuda a compreender por que uma oficina sobre sementes, realizada décadas depois, não começa do zero. Ela se insere em uma trajetória de mobilização, cuidado e circulação de conhecimentos construída pelo próprio povo Krahô.
Durante a oficina na Aldeia Macaúba, esse conhecimento apareceu nas experiências compartilhadas pelos participantes: na escolha das sementes, no cuidado com a roça, na preocupação em guardar variedades para o próximo plantio e na necessidade de ampliar aquilo que já é cultivado pelas famílias.
Uma das reflexões do encontro foi justamente sobre a importância de produzir para que as sementes possam circular. Quando uma variedade é plantada, multiplicada e compartilhada, aumentam também as possibilidades de que ela continue presente em outras roças e chegue às próximas gerações.
Essa preocupação apareceu de forma especial nas falas das mulheres participantes. Valquíria Krahô destacou o compromisso de levar mais sementes para os próximos encontros e de compartilhar esses conhecimentos com filhos e netos, inclusive dentro das escolas. Em sua fala, a continuidade das sementes esteve diretamente ligada à possibilidade de manter alimentos como mandioca, inhame, frutas e outras comidas aprendidas com os antepassados presentes no cotidiano das famílias.
O debate também trouxe uma preocupação cada vez mais presente nas comunidades: a alimentação. Participantes relacionaram a diminuição das roças e dos alimentos tradicionais à presença crescente de produtos comprados nas cidades e defenderam a retomada e o fortalecimento da produção local. Nesse contexto, plantar expande a produção agrícola, a roça relaciona movimento, conhecimento do território, alimentação e autonomia.
A discussão reforçou uma perspectiva que orientou toda a oficina: fortalecer a alimentação tradicional é criar condições para que conhecimentos construídos ao longo de gerações continuem sendo praticados, adaptados e transmitidos no presente.
Além das atividades relacionadas diretamente às sementes, a oficina incluiu a construção coletiva de um mapa do território. O exercício partiu das experiências e do olhar dos próprios Krahô sobre os lugares que fazem parte de sua vida, o que permitiu reunir percepções sobre roças, caminhos, áreas de uso e outros elementos importantes para a relação da comunidade com o território.
A construção do mapa aproximou duas dimensões que estiveram presentes durante todo o encontro: não há como falar de sementes sem falar de território. É no território que as sementes encontram as condições para germinar, que os conhecimentos sobre plantio são experimentados e atualizados e que as relações de troca entre pessoas, famílias e gerações acontecem.
Por isso, conservar sementes tradicionais vai além do armazenamento, a experiência histórica Krahô mostra a importância de mantê-las em circulação: plantar, colher, selecionar, repartir e voltar a plantar. O próprio processo de recuperação do pohumpéy demonstrou que devolver uma semente ao território é apenas o começo; é o cultivo contínuo que permite que ela volte a fazer parte da vida.
Uma das falas compartilhadas durante a oficina sintetizou esse sentido de continuidade: séculos passaram e o povo Krahô continua produzindo, plantando e lutando pela vida. Há esperança porque há sementes sendo cultivadas e conhecimento sendo compartilhado.
É também nesse sentido que o Instituto Terra desenvolve ações de fortalecimento da autonomia, da proteção dos territórios e dos modos de vida indígenas: construindo processos a partir do diálogo com as comunidades e dos conhecimentos que já existem e seguem sendo produzidos nos territórios.
O que circulou durante os três dias da Oficina sobre as Sementes Krahô, permanece nas roças, nas sementes guardadas, nas conversas e no compromisso manifestado de continuar plantando e compartilhando. Como lembrou o cacique Valdir, “isso é a nossa luta”. Uma luta que também se faz cultivando, guardando e garantindo que as sementes que atravessaram gerações possam continuar germinando nas próximas.
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LONDRES, Flavia; DIAS, Terezinha Borges; PIOVEZAN, Ubiratan; SCHIAVINI, Fernando. As sementes tradicionais dos Krahô: uma experiência de integração das estratégias on farm e ex situ de conservação de recursos genéticos. Rio de Janeiro: AS-PTA, 2014. Publicação realizada pela Articulação Nacional de Agroecologia (ANA), Embrapa, Funai, Kapéy – União das Aldeias Krahô e Rede Ipantuw.
Povo Krahô: das sementes brotam alimentos e identidade com os antepassados. Documento de referência disponibilizado para elaboração desta matéria.
Fotos: Jorge Valente
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