

Durante três dias na Terra Indígena Apinajé, lideranças discutiram mineração, demarcação, mudanças climáticas, participação política e soberania alimentar.
O encontro também reuniu experiências de resistência e transmissão de conhecimentos entre povos indígenas do estado.
A Aldeia Prata, na Terra Indígena Apinajé, em Tocantinópolis (TO), recebeu, entre os dias 17 e 19 de setembro, a Assembleia dos Povos Indígenas no Tocantins. Com o tema “Direitos indígenas e justiça climática: desafios e caminhos para a proteção dos territórios”, o encontro reuniu representantes dos povos Apinajé, Krahô, Xerente, Krahô-Kanela e Krahô da Aldeia Takaywrá para discutir problemas vividos dentro e no entorno de seus territórios e construir formas coletivas de enfrentamento.
As discussões passaram pela situação das terras ainda sem demarcação, pelas ameaças relacionadas à mineração e ao avanço de atividades econômicas sobre os territórios, pelo combate ao fogo, pelas mudanças climáticas, pelo período eleitoral e pela preservação das sementes e roças tradicionais.
Ao longo da Assembleia, diferentes gerações de lideranças relacionaram a proteção territorial à alimentação, à água, à memória, à autonomia política e à possibilidade de continuidade dos povos. Para Carlos Apinajé, uma das lideranças presentes, reunir diferentes povos também significava transformar dificuldades comuns em articulação.
“Estamos realizando esse evento para debater os nossos direitos, os problemas, os desafios. Vamos discutir os problemas que têm no território, saúde, educação, os povos ainda sem território demarcado. É isso que nós queremos debater para fortalecer a nossa luta.”
Uma das principais preocupações apresentadas durante o encontro foi a pressão de empreendimentos e atividades econômicas sobre as terras indígenas. Na programação da Assembleia, a discussão sobre mineração e territórios indígenas ocorreu no segundo dia, acompanhada de debates sobre questões indígenas junto ao Ministério Público Federal. Na noite anterior, o combate ao fogo nos territórios também havia sido tema de conversa entre participantes, brigadistas e organizações presentes.
O cacique Joel Apinajé, da Aldeia Prata, chamou atenção para o fato de que os impactos não começam necessariamente dentro dos limites oficialmente reconhecidos das terras indígenas. “Hoje o assunto que nós estamos discutindo é a questão da mineração sobre o nosso território. Nós, povos indígenas, temos essa preocupação. É um impacto muito grande, não só de dentro do nosso território, mas também perto da nossa divisa.” A fala ajuda a compreender que a proteção territorial não termina numa linha desenhada no mapa. O que acontece no entorno interfere na água, na vegetação, nos animais e nas formas de vida mantidas dentro das terras indígenas.
Gecilha Krahô relacionou essas transformações a impactos já percebidos pelas comunidades. “Primeiro enganaram nós, que diziam que a barragem não ia atingir, não ia dar nada. Perdemos! E agora já vem o negócio de garimpo, o tanto de desmatamento que está tendo.”
A preocupação também aparece diante das mudanças recentes na legislação ambiental. A Lei Geral do Licenciamento Ambiental, Lei nº 15.190/2025, passou a estabelecer normas nacionais para o licenciamento e contém dispositivos específicos sobre empreendimentos que possam afetar terras indígenas. Durante a Assembleia, mudanças na legislação e seus possíveis efeitos sobre povos e territórios estiveram entre os assuntos da análise da conjuntura indigenista.
A defesa do território apareceu junto à capacidade dos próprios povos de interpretar os problemas que os atingem e participar das decisões sobre seus futuros. Em uma das falas da Assembleia, Gecilha Krahô questionou relações nas quais decisões sobre os povos indígenas são tomadas sem que suas próprias formas de conhecimento e organização sejam consideradas. “Quem tem de gritar somos nós indígenas, que têm de dizer. A terra é do mehin, não é do kupen. Nós temos a nossa boca, nós temos os nossos corações e nós temos o miolo para pensar. E nós temos os nossos olhos para poder ver e perceber como é que a gente tem de falar.” A fala de Gecilha reivindica a existência de modos próprios de pensar, perceber e decidir, transmitidos entre gerações e mobilizados diante das transformações que chegam aos territórios.
A discussão em torno da presença dos mais velhos e dos jovens também integrou a Assembleia. “Parece que metade do povo está dormindo, metade do povo está esquecido”, disse Gercilha em outro momento. Para ela, circular por outros espaços e ouvir diferentes experiências tem ampliado sua responsabilidade com aqueles que vêm depois: “Cada vez mais eu estou abrindo meu olho, estou abrindo minha cabeça, para poder dar conselho aos meus filhos, meus netos que estão vindo.”
A luta territorial aparece também como uma relação entre tempos. O que foi defendido pelas gerações anteriores é retomado no presente diante de novas ameaças e projetado sobre as condições que filhos, netos e bisnetos encontrarão.
Izabel Xerente comenta sobre essa preocupação: “Eu tenho que lutar por meus filhos, por meus netos. O andorim sozinho não faz verão, mas se nós juntamos tudo… Hoje eu estou com meu coração na mão por causa do meu neto, por causa do meu filho, por causa do tataraneto. Com o que vai ficar se eu morrer?”
Se para alguns dos povos presentes a preocupação estava em proteger territórios já reconhecidos, para outros a própria garantia da terra permanece como uma luta em andamento.
José Valdete, cacique Krahô da Aldeia Takaywrá, levou à Assembleia o relato de uma comunidade que ainda aguarda a garantia de seu território. Ao ouvir durante o encontro diferentes lideranças associarem a terra à figura da mãe, ele respondeu a partir da própria experiência: “Quando vocês falaram ontem que a terra é uma mãe, eu estou aqui neste lugar e não tenho mãe. Eu nasci aqui no município, mas eu não tenho essa mãe. Fui criado pela mãe dos outros parentes. Até hoje estamos vivendo assim.”
As famílias vivem atualmente em uma pequena área e enfrentam alagamentos recorrentes, com limitações até mesmo para a construção de novas moradias. “Água dentro de casa, jacaré dentro de casa, peixe dentro de casa, e nós estamos resistindo naquele lugar. Já fomos removidos duas vezes daquele local por causa da enchente.”
A situação do povo Krahô da aldeia Takaywrá aproximou uma discussão jurídica, a demarcação, de sua consequência mais concreta: onde construir uma casa, plantar, criar os filhos e permanecer coletivamente.
A Constituição Federal reconhece aos povos indígenas direitos originários sobre as terras que tradicionalmente ocupam. A aplicação desses direitos, no entanto, permanece atravessada por disputas políticas e judiciais. A Lei nº 14.701/2023, que regulamentou aspectos relativos ao reconhecimento e à demarcação, passou a ser questionada no Supremo Tribunal Federal em diferentes ações.
Na Assembleia, a discussão chegou a outro elemento central da autonomia territorial: as sementes.
A programação reuniu guardiões e guardiãs de sementes tradicionais e terminou com uma troca entre os participantes. Evidenciando que o território é o lugar onde os conhecimentos são cultivados, experimentados e transmitidos.
Wagner Katamy, cacique da Aldeia Catamjê, explicou que o trabalho com as roças envolve diretamente os mais velhos e os jovens. “Fazendo um trabalho com nossos mais velhos e também com os mais jovens para que nós possamos melhorar essas roças, roças tradicionais. Isso aqui é que alimenta nós e alimenta também os povos que moram próximo de nós.”
As sementes também carregam trajetórias entre comunidades. Wagner contou que algumas das variedades levadas para a troca já haviam chegado até ele em encontros anteriores. “Essa semente que eu trouxe aqui eu já fiz troca no passado com o Krahô, lá na Aldeia Porteira. Já plantei. Alguém também, em outro evento, já fez uma troca, já plantou. Então é uma coisa muito boa.”
A circulação das sementes evidencia outro sentido da Assembleia: conhecimentos não permanecem parados. Passam de uma aldeia a outra, de uma geração a outra e voltam ao território transformados. O relato também confronta estereótipos históricos sobre a relação dos povos indígenas com o trabalho e a produção. Isaac Krahô lembrou durante o encontro: “Falam da gente que a gente é preguiçoso, que a gente não trabalha, que a gente não faz nada. Mas é engano deles, porque é a gente que preserva o meio ambiente. Nós fazemos uma rocinha para o nosso consumo, não para pegar e vender.”
A roça, nesse contexto, não pode ser compreendida somente a partir da lógica da produção comercial. Ela participa da alimentação, da organização comunitária, da relação com a terra e da manutenção de conhecimentos próprios.
Outro eixo da Assembleia foi a participação política. Na manhã do último dia, o encontro debateu eleições e territórios indígenas, discussão que colocou em pauta tanto a escolha de representantes quanto o acompanhamento das decisões tomadas depois do período eleitoral.
O líder indígena, Oscar Apinajé, ressaltou que vínculos pessoais ou familiares não deveriam impedir a avaliação das posições políticas que atingem os próprios povos. “Devemos avaliar essas lideranças e analisar qual partido é. Porque não adianta votar por causa desses vínculos de família num partido que é contra o meu direito, contra a minha soberania e cidadania também.”
Um representante da juventude acrescentou outra dimensão à discussão: a participação não termina no voto. “A gente espera só pela liderança. Temos que fiscalizar. A gente tem que se unir, buscar. É muito importante essa palestra porque alguns parentes às vezes não sabem. A gente acumula mais conhecimento e faz uma cobrança pela liderança.”
Durante esse debate, o procurador da República no Tocantins Álvaro Manzano lembrou que decisões relacionadas a temas como mineração e direitos territoriais passam também pelo Congresso Nacional e ressaltou a importância da organização política dos povos diante dessas disputas.
A Assembleia terminou na noite de 19 de setembro com a leitura de uma mensagem construída pelos povos participantes. O documento reúne preocupações com a Lei nº 14.701/2023, mineração, desmatamento, incêndios, mudanças climáticas e outras pressões sobre os territórios, além de reivindicações relacionadas à demarcação, ao direito de consulta e à proteção ambiental.
A mensagem conecta diferentes experiências compartilhadas na Aldeia Prata. As falas de quem possui território demarcado e teme sua degradação encontraram as de quem ainda luta pelo reconhecimento da própria terra. As discussões sobre legislação encontraram as preocupações com filhos e netos. O debate sobre mineração encontrou as sementes levadas para troca.
Em comum, permaneceu uma ideia repetida de diferentes formas ao longo da Assembleia: não há como separar direitos indígenas, proteção ambiental e continuidade dos territórios.
Na mensagem final, os povos sintetizaram: “A nossa luta é uma só e é por todos.”
Leia também: [Povos indígenas do Tocantins divulgam mensagem final da Assembleia realizada na Terra Indígena Apinajé]
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Fotos: Emerson Silva
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